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1 24/02/2021 09:48

Eles e mais três comparsas sequestraram uma mulher em Itapuã, em 2001, e exigiram um resgate de R$ 35 mil

Acostumado com os holofotes e a vida glamourosa que levava na cidade de Jaguaripe, no Recôncavo Baiano, o casal de empresários Leandro Silva Troesch e Shirley da Silva Figueredo, donos de duas badaladas pousadas, ambas situadas na famosa Praia dos Garcez, onde já se apresentaram artistas e personalidades baianas, além de turistas famosos, foram presos na última sexta-feira (19/2) dentro de uma das propriedades, após terem sido sentenciados pelos crimes de roubo e extorsão mediante sequestro contra a uma mulher em Salvador. 

Agentes da delegacia de Valença prenderam Leandro e Shirley na Pousada Paraíso Perdido. O casal trabalhava quando foi surpreendido pelos policiais. No sábado (20/2), eles foram levados para Salvador e custodiados no Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco), para então serem encaminhados para o Complexo Penitenciário da Mata Escura. “Mas já recorremos à Justiça”, declarou o advogado de defesa, Abdon Abadde. 

Leandro e Shirley viviam uma vida normal, apesar de terem sido condenados em segunda instância pelo Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) em 2010 a 14 e 9 anos de prisão, respectivamente, em regime fechado. Os empresários são figuras públicas e as páginas do Instagram da Paraíso Perdido e da Pousada Aconchego das Águas somam quase 90 mil seguidores, com fotos deles sozinhos ou acompanhados de clientes, artistas e jornalistas. Apesar de tudo isso, o casal estava na condição de foragido. 

Em nota, a Polícia Civil confirmou a prisão, destacando que a confirmação da sentença (transitada em julgado) deu-se em 2018. O casal já foi transferido para o Complexo Prisional da Mata Escura e está à disposição da Justiça. Sobre o fato de a decisão ter sido cumprida somente na sexta, a PC disse que só agora o casal foi localizado. 

Apesar de a polícia ter informado ao CORREIO que a prisão se deu com base em determinação judicial em 2018, o Ministério Público do Estado (MP-BA) disse que no último dia 26 de janeiro a Justiça determinou a prisão dos empresários ao negar os recursos ingressados pelos advogados de defesa, solicitando a revogação de prisão preventiva decretada contra eles.

“O relator do processo, o juiz substituto de 2º Grau, Humberto Nogueira, pontuou que havia mandados de prisão em aberto, expedidos desde agosto de 2018, e, portanto, o fato de eles ainda estarem soltos configurava não aplicação da lei penal”, diz nota do MPE.

Desde o dia 7 de agosto de 2018 estavam em aberto mandados de prisão contra o casal de empresários. Ou seja, Leandro e Shirley estavam na condição de foragidos. “Em tese, sim (foragidos). Só que eles nunca se esquivaram. Desde quando os mandados foram cumpridos, nunca foram procurados pela Justiça. Uma coisa é você se apresentar. Mas eles optaram em trabalhar. ‘Olha doutor, se chegar (mandado), vamos acatar’, foi o que um dos meus clientes disse. E eles não tinham porque se esconder. Eles têm Instagram, fazem eventos no hotel e divulgam. São figuras públicas e estavam lá esse tempo todo”, declarou Abadde. 

O crime

O CORREIO teve acesso às informações do processo que apura as acusações contra Leandro e Shirley. Outras três pessoas contam como réus. São elas: Joel Costa Duarte, Carlos Alberto Gomes de Andrade e Júlio da Silva Santos. De acordo com a Justiça, Joel abordou a vítima no dia 10 de maio de 2001, quando ela estacionava o carro na porta de casa, no bairro de Itapuã, por volta das 18h30. Eles tomaram o veículo da vítima e a mantiveram no carro enquanto eram efetuados saques de dinheiro em caixas eletrônicos. 

Ao verificar o saldo bancário da vítima, Joel arquitetou a extorsão mediante sequestro, ficando a cargo de Júlio mantê-la em cárcere privado, primeiro no Motel Le Point, em Itapuã, depois numa casa situada na Praia de Ipitanga, em Lauro de Freitas, Região Metropolitana de Salvador (RMS), alugada ao próprio Joel e a dois comparsas, neste caso, Leandro e Shirley. Enquanto mantida em cárcere privado, a vítima foi alvo de reiteradas ameaças de morte feitas por Júlio, somente sendo liberada após o pagamento do resgate de R$ 35 mil. No processo consta que Leandro que conduziu o veículo da vítima e fez os saques. Já Shirlei, foi a responsável por buscar o pagamento do resgate. Já as armas utilizadas na prática dos crimes pertenciam aos dois Joel e Júlio, que conseguiram fugir na ocasião.  No entanto, Leandro, Shirley e Carlos Alberto foram presos em flagrante. Posteriormente o casal passou a responder pelos crimes em liberdade, até a justiça ter voltado atrás em 2018.

Repercussão
Jaguaripe é uma cidade com 891.345 km2 e tem uma população de aproximadamente 18.790 habitantes. É na Praia do Garcez que estão os dois empreendimentos do casal, ambientados no estilo rústico e cercados de muita área verde, um encontro do rio com o mar e quilômetros de praias semi-virgens. O mais badalado deles é a Pousada Paraíso Perdido, que possui suítes e chalés, onde a diária varia entre R$ 420,00 e R$ 1.200,00 na alta estação, além de restaurante e lojas. O estabelecimento já foi palco para apresentação de artistas baianos, como Jau, Banda Eva, Magary Lord, Pierre Onassis, dentro outros e já hospedou também atores globais. Para se ter ideia do tamanho do empreendimento, o espaço foi utilizado no réveillon de 2009 para Universo Paralelo, uma das maiores festas de eletrônica do país e que reuniu cerca de 17 mil pessoas. 
 
A prisão até hoje é assunto em Jaguaripe. “Foi um baque, porque ninguém imaginava. São pessoas acima de qualquer suspeita. Como a cidade aqui é muito pequena, as pessoas quem vem de fora para investir aqui são colocadas lá em cima, como pessoas de bem, de boa índole. Era essa a imagem que a gente tinha deles. De uma hora para outra, tudo mudou e não há outo assunto na cidade, a não ser a prisão deles”, disse por telefone ao CORREIO um morador da cidade.   

Os comentários estão por todo o canto. Desde a tradicional mesa de bar a grupos de mensagens de WhatsApp. “Quando recebi a informação no grupo, custei a acreditar. Mas depois que a foto dos dois começou a circular, o que mais ouvi foi isso: ‘Tá vendo você, quem vê cara, não vê coração’. As pessoas ficaram decepcionadas porque, até então, ninguém tinha nada contra eles, pelo contrário. Eles ajudavam muito o pessoal aqui, contratando mão-de-obra a mais na temporada na alta estação. Eu mesmo tenho amigos que trabalham há um certo tempo na pousada”, disse o morador ao CORREIO. 

Uma outra fonte da cidade, que já mora há muito mais tempo na região, disse também por telefone que onde hoje é a Pousada Paraíso Perdido era um casebre. “Eles chegaram aqui há muito tempo e não tinham dinheiro. O que se comenta é que onde hoje é a Paraíso Perdido era uma casa pequenininha, que eles passaram a tomar conta. Só que a dona morreu e aí eles ficaram, conseguiram investimento e começaram a trazer vários artistas. Não eram ricos quando chegaram aqui. Começaram a crescer depois. Mas ninguém sabe onde eles tiraram esse dinheiro”, contou. 

Já na Pousada Aconchego das Águas a infraestrutura é um pouco menor. Segundo os moradores, nesse empreendimento, o casal é o principal sócio. Três diárias numa cabana custam R$ 2.400.   







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